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Uma Abordagem Fenomenolgica
da Psicoterapia
 perigoso fazer ver demais ao homem quanto eld 
 igual aos anttttais, sem lhe mostrar a sua urandeza. 
 ainda perigoso fazer-lke ver demais a sua grandeza 
sem a sua baixeza.  ainda mais perigoso deix-lo 
ignorar uma e outra. Mais  muito vantajoso representar-lhe ambas. 
 BIISE PASCL, Pensamentos. 
NO cREIo que exista uma escola especial de terapia que possa ser colocada numa ctegoria de existencial. Como 
emprego o termo, existencial refere-se a uma atitude em relao aos seres humanos e a um conjunto de pressupostos 
sobre esses seres humanos. Portanto, falarei neste captulo a respeito da psicoterapia intensiva, quer se trate da freudiana, 
jungiana, sufivaniana ou de qualquer outra escola. 
Devemos admitir, desde j, que ainda no construmos uma ponte completa entre a fenomenologia e a psicoterapia. 
Existem os comeos dessa ponte; temos o trabalho extraordinariamente importante de Straus e de outros psiquiatras 
fenomenolgicos, como Minkowski e Binswanger, cujas obras, acredito, ganharo uma importncia cada vez maior, no 
futuro, para a psicoterapia. E h psiclogos como Buytendijk e filsofos fenomenolgicos que deram contribuies 
relevantes para a Psicologia, como Merleau-Ponty. Mas, como o prprio Binswanger foi o primeiro a dizer, a ligao entre 
a fenomenologia e a psicoterapia , no momento, apenas indireta. Muitos passos precisam ser dados entre a fenomenologia 
pura, de um lado, e a psicologia e a psiquiatria, de outro lado; isso  proporcionado mais pelo nosso 
UMA BORDAGEM FENOMENOLGICA 
problema existencial do que pela nossa falta de capacidade de formulao. Certamente no nego os vrios inter-
relacionamentos existentes entre a fenomenologia e as diferentes espcies de terapia. Mas acredito que a nossa atual tarefa 
global  a de construo. Quando se constri uma ponte sobre o San River, em Nova York, uma parte da ponte avana 
desde o Brooklyn e a outra parte arranca de Manhattan; estamos em processo de construo, com a fenomenologia de um 
lado e a psicologia do outro, avanando para um ponto de encontro. O que pretendo fazer neste captulo  explorar alguns 
dos problemas dessa construo, o que significam os problemas na relao existente entre a psicoterapia e a fenomenologia. 
Na mesma ordem de idias, -Jean-Paul Sartre escreve que ainda no estamos prontos para formular uma psicanlise 
existencial, chegando a essa concluso, um tanto ironicamente, no captulo intitulado Psicanlise Existencial de seu livro 
Ser e No-Ser. Acho que ele est certo, no tocante a uma psicanuse existencial e mesmo a uma fenomenolgica.  
significativo, diga-se de passagem, que Sartre, no seu livro, considera seriamente Freud, a Psicanlise e os problemas que ela 
contm  uma atitude que podemos recomendar, sem dvida, a outros filsof os. 
A considerao inicial, para o entendimento das relaes existentes entre a fenomenologia e a psicoterapia,  
que defrontemos diretamente a obra de Sigmund Freud. Se tentarmos contornar Freud, seremos culpados de 
uma espcie de supresso. Pois o que Freud pensou, escreveu e realizou no campo da terapia, quer 
concordemos inteiramente com ele ou no, impregna toda a nossa cultura, a nossa literatura e arte, e quase 
todos os demais aspectos da interpretao dada pelo homem ocidental a si mesmo. Obviamente, Freud teve 
mais influncia na Psicologia e Psiquiatria do que qualquer outro homem do sculo XX. Se no o defrontarmos 
diretamente, de um modo consciente e decidido, as nossas discusses sobre terapia estaro sempre flutuando 
no vazio. 
Alm disso, no podemos rejeitar Freud, simplesmente, enumerando todos os pontos em que discordamos 
dele. Um vero, h vinte e cinco anos, estava numa ilha do Maine, acabando uma tese sobre Psicoterapia. Um 
amigo que eu a fizera, um jovem sacerdote catlico com quem costumava ir nadar e pescar, apareceu um dia no 
meu quarto e viu na estante vrios livros de Freud. Imediatamente me explicou, em doze frases sucintas, por 
que  que Freud estava errado. Como isso aconteceu antes da Psicoterapia ser admitida como leitura nos 
seminrios teolgi 19 
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PSICOTERAPIA UMA ABORDAGEM FENOMENOLGICA 
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cos, tanto catlicos como protestantes, tive minhas dvidas sobre se o jovem padre saberia alguma coisa 
sobre o mestre de Viena. De modo que lhe perguntei se j tinha Udo algum livro de Freud. Oh, sim, 
respondeu ele, no seminrio, todos so obrigados a ler um livro. Achei isso uma atitude muito esclarecida e 
perguntei ento o nome do livro, O ttulo, disse ele, era Freud Retutado. 
Este incidente sempre me acode ao esprito quando leio os escritos, em especial, das escolas dissidentes; 
tenho lido muito sobre Freud refutado, mas o que no consigo encontrar facilmente  um confronto srio e 
direto com o prprio Freud. 
Acredito que o debate com Freud deve ser travado em duas frentes. Em primeiro lugar,  preciso avaliar e 
indagar o significado das vastas mudanas, equivalentes, em muitos aspectos, a uma verdadeira revoluo, 
que o impacto de Freud provocou na imagem que o homem ocidental faz de si prprio. E, segundo, temos de 
enfrentar o fato de que a imagem do homem que ele conscientemente procurou e para a qual trabalhou  uma 
imagem surpreendentemente contraditria, em muitos pontos, com a sua mitologia   inadequada e deve ser 
substituda por uma compreenso da natureza do homem que seja adequada ao homem como ser humano. 1 
Proponho que uma das tarefas que precisa ser realizada  uma anlise fenomenolgica de Freud e do 
significado do seu impacto sobre a cultura ocidental. S posso oferecer aqui alguns comentrios quanto ao 
modo como vejo o significado subjacente desse impacto sobre a nossa imagem do homem. 
Em primeiro lugar, Freud ampliou tremendamente o domnio da conscincia humana O significado dessa 
elaboraco eelucidao do que ele chamou o inconsciente (ou o que eu pre1 Foi a onipresente mitologia de 
Freud, como o mito de dipo, 
e a sua permanente habilidade e coragem para pensar mitologicamente que o salvaram das implicaes 
mecanisticas do seu determinismo. A imagem do homem que ele procurou  isto , uma imagem que se 
ajustasse s categorias deterministas da cincia natural do sculo XIX  nunca logrou ser inteiramente realizada 
porque a mitologia sempre interveio para conferir novas dimenses  imagem. (Uma coisa semelhante 
aconteceu com Plato, num diferente contexto, quando tentou pensar logicamente sobre o homem; no final das 
categorias lgicas, o pensamento platnico entra em rbita, nas asas de um mito.) Mas quando o freudismo 
atravessou o oceano Atlntico, a primeira coisa a ir pela borda fora foi a mitologia. Assim, o mecanismo e o 
determinismo do freudismo tornaram-se na Amrica um problema muito mais dificil e frustrador do que na 
Europa, fazendo companheiros de cama do behaviorismo, por um lado, e do positivismo lgico, por outro. 
firo chamar potencialidades inconscientes da experincia) foi uma ruptura radical do racionalismo e voluntarismo 
vitorianos, Tratarei mais adiante do proilema do inconsciente. Por agora, quero apenas enfatizar que Freud desvendou as 
vastas reas em que o comportamento e os motivos humanos so influenciados, moldados e impelidos  e, nos casos 
neurticos, determinados 
 por foras que so muito mais vastas, mais profundas e significativas do que as abrangidas pelo racionalismo vitoriano. A 
contribuio de Freud consistiu em ampliar a esfera da personalidade humana, incluindo nela a dimenso de profundidade, 
isto , os impulsos irracionais, os chamados impulsos reprimidos e inaceitveis, as foras instintivas, as necessidades 
corporais prementes, a ansiedade, o medcl, os aspectos esquecidos da experincia, ad intinitum. 
A sua elucidao de desejo e impulso e o seu desmascaramento da auto-sugesto da fora de vontade 
vitoriana tambm destruram o moralismo, naquele sentido simplista em que, como crianas, quase todos ns o 
absorvemos. Lembro-me de que fui ensinado, como uma criana do Centro-Oeste, que poderia decidir 
completamente o meu destino mediante qualquer resoluo que tomasse no dia de Ano Novo ou entrando 
numa igreja, em qualquer domingo, quando me desse na veneta. Essa espantosa prova de arrogncia equivalia, 
realmente, a que eu desempenhasse um papel de Deus. Aprendi depois disso que Deus age por caminhos 
muito mais misteriosos  para expressar-me em termos religiosos  e que o meu prprio destino e o dos outros 
seres humanos  para expressar-me em termos psicolgicos  promana de nveis mais profundos, no corao e 
na psique humanos, do que tnhamos sido levados a crer em nosso to liberalizado e superesclarecido 
Ocidente. Essa crena vitoriana na fora de vontade era, realmente, a consagrao  manipulao da natureza, 
 lei da natureza com mo de ferro (como no industrialismo e no capitalismo) e  lei do nosso prprio corpo, 
com a mesma mo de ferro, e  manipulao do nosso eu, de um modo semelhante (o que  evidente no s na 
tica do Protestantismo mas tambm em outros sistemas religiosos dos nossos dias, e est particularmente 
presente na tica no-religiosa da Madison Avenue, a qual no  atenuada por um sentimento de pecado nem 
humanizada por um princpio de misericrdia). 
Ora, essa manipulao do Eu, na base de um tal conceito de fora de vontade moralista, precisava ser destruda 
Estou convencido de que foi essa uma das grandes contribuies de Freud: ao elucidar a quantidade infinita 
de desejos, impulsos e 
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PSICOTERAPIA UMA ABORDAGEM FENOMENOLGICA 
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outras motivaes, dos quais, em qualquer momento dado, podemos no estar conscientes, ele tornou 
impossvel essa espcie de fora de vontade e moralismo. Do tempo de Freud aos nossos dias, o problema 
moral no se perdeu mas foi colocado em nvel mais profundo; e os problemas da culpa e da responsabilidade 
tm de ser enfrentados nesse nvel mais profundo. Corretamente entendidos, esses terremotos que Freud 
produziu na cultura ocidental, terremotos que abalaram at os alicerces toda a imagem que o homem ocidental 
fazia de si prprio, implicam uma humildade que pode ter um carter de libertao. 
Indicarei mais tarde por que acredito que as inadequaes de Freud deram fora a uma eroso do sentido de 
responsabilidade individual do homem moderno. Mas, neste ponto, permitam-me dizer que h implicaes 
curiosas no determinismo psicolgico de Freud que, de modo geral, negligenciamos, implicaes essas que 
apontam na direo da liberdade psicolgica. Observo nos meus pacientes o estranho fato de que as suas 
reaes a uma interpretao minha no se concentram tanto, com freqncia, na verdade ou no da minha 
interpretao como nas implicaes libertadoras do meu ato de formular uma interpretao. O paciente parece 
estar ouvindo, na minha interpretao, as palavras: O seu problema tem razes interiores mais profundas do 
que julga; voc pode ficar de fora e haver-se com isso. Isto lembra-nos a sentena de Espinosa: Liberdade  
o reconhecimento do determinismo. 
Destas breves indicaes de como acredito que uma abordagem fenomenolgica de Freud poderia e deveria 
ser efetuada, passemos agora a explorar as relaes existentes entre fenomenologia e psicoterapia. 
Ns, PSICOTERAPEUTAS, esperamos que a fenomenologia nos indique um caminho para a compreenso da 
natureza fundamental do homem. Necessitamos de normas, relativamente ao homem, que possuam um certo 
grau de universalidade. Sempre que temos um paciente  nossa frente, pressupomos alguma resposta  
pergunta: O que  que constitui este ser, como ser hwnano? No podemos obter essa compreenso da 
natureza do homem a partir do nosso estudo da doena, visto que as vrias categorias de doena s podem 
ser entendidas, elas prprias, como distores no entendimento, pelo paciente, da sua natureza humana e 
como bloqueios em seus esforos para dar realidade a aspectos dessa natureza. 
Eu disse compreenso do homem. Poderia dizer conhecimento da natureza do homem, ou conceito ou 
imagem do 
homem. Mas conhecimento soa demasiado esttico, conceito demasiado intelectual, e imagem 
demasiado esttico. Nenhum termo  inteiramente adequado. Escolhi compreenso no sentido de um 
contexto bsico em que Rodemos ir ao encontro dos nossos pacientes e trabalhar com eles. 
Abordarei trs problemas centrais da Psicoterapia que ilustram e exemplificam essa necessidade de uma 
compreenso da natureza fundamental do homem. Com cada problema espero mostrar, primeiro, as dificuldades 
em que camos por nos faltar essa compreenso; segundo, como a fenomenologia, tal como eu a entendo, pode 
nos proporcionar as normas de que necessitamos; terceiro, como a neurose  uma distoro dessas normas; e 
quarto, algumas implicaes que da decorrem para a nossa psicoterapia. 
Primeiro, temos o problema de definir sade, doena e neurose. Nos nossos campos, temos estado na 
estranha posio de deduzir da doena e da neurose a nossa imagem de homem normal e saudvel. As 
pessoas que no sofrem qualquer desarranjo no procuram ajuda; e temos propenso de no perceber os 
problemas de qualquer espcie que no se ajustem s nossas tcnicas. Como s identificamos a neurose (e 
muitas formas de psicose) em virtude do fato dos que dela sofrem no se ajustarem, por esse motivo,  nossa 
sociedade, e como compreendemos a doena em virtude das nossas tcnicas, estamos fadados a acabar com 
uma viso do homem que  um espelho da nossa cultura e das nossas tcnicas. Tsto resulta, inevitavelmente, 
numa viso progressivamenre vazia do homem. A sade converte-se no vcuo que  fixado quando a 
chamada neurose  curada. No nvel da psicose, se u homem pode permanecer fora da priso e sustentar-se, 
chamamos a esse vcuo sade. 
Essa concepo vazia de sade (preenchida apenas por algumas vagas pressuposies biolgicas sobre 
crescimento, satisfao da libido etc.) teve muito a ver com as tendncias gerais, em nosso tempo, para o 
tdio, a passividade, a indiferena, o vazio emocional e espiritual. A concepo vazia da sade muitas vezes 
coloca a Psiquiatria e a Psicologia, assim como outras formas de cincia, do lado que torna a vida cada vez 
mais possvel e mais extensa,  custa de fazer a existncia mais montona e tediosa. Deste ponto de vista, 
podemos entender por que motivo os nossos pacientes mostram, freqentemente, uma estranha falta de 
entusiamo por melhorarem, pois talvez no seja to irracional suspeitarem de que a neurose  mais interessante 
do que a sade e de que a sade pode ser a estrada real para a apatia. 
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PSICOTERAPIA UMA ABORDAGEM FENOMENOLGICA 
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Essa concepo negativa e progressivamente vazia de sade 
 que, acredito eu, est implicita na psicanlise clssica, assim como em outras disciplinas  levou, 
inevitavelmente, a uma definio francamente social-conformista de sade. Nesta definio, as normas de 
sade so extradas das exigncias da cultura. Isto constitui uma distoro e, por vezes, o erro real de escolas 
culturais como a de Horney e a minha escola interpessoal: 
elas pairam, perigosamente,  beira do conformismo, cujo pr ximo passo  o homem-organizao. No 
quero dizer que tenha sido essa, em absoluto, a inteno de Freud, Horney ou Sul.livan. O que eu quero dizer  
que a falta de um conceito adequado da natureza do homem tornou a definio de sade inevitavelmente vazia 
e nesse vcuo se precipitaram intrusos tais como ajustamento, adaptao, compatibilizar o Eu com as 
realidades da sociedade etc. Essa tendncia, acredito, aumenta radialmente com o recente aparecimento das 
formas de condicionamento operante da Psicoterapia, as quais se baseiam numa franca negao de qualquer 
necessidade de uma teoria do homem, alm do pressuposto do terapeuta de que as metas escolhidas por ele e 
pela sua sociedade, sejam quais forem, so as melhores para todos os homens possveis e imaginveis. 
De que modo poder a fenoiieno1ogia ajudar-nos a respeito do nosso conceito de sade? Quando um paciente 
entra e senta-se na cadeira diante de mim, no meu consultrio, o que posso pressupor a seu respeito? 
Oferecerei alguns princpios que me foram teis, 2 aos quais j fiz meno, mas que desenvolverei agora um 
pouco mais. Parto do princpio de que essa pessoa, como todos os seres, est centrada em si mesmo e que um 
ataque a essa centralidade  um ataque  sua prpria existncia. Ele est aqui no meu gabinete porque essa 
centralidade se desintegrou ou est sendo perigosamente ameaada. A neurose, portanto, no  vista como 
um desvio das minhas teorias particulares do que uma pessoa deve ser mas, precisamente, como o mtodo que 
o indivduo usa para preservar a sua centralidade, a sua prpria existncia. Os seus sintomas so o seu modo 
de limitar o mbito do seu mundo, a fim de que a sua centralidade possa ficar protegida de ameaas; uma forma 
de bloquear de- 
2 Chamo a estes princpios ontolgicos, de acordo com Paul Tillich, a quem me confesso devedor por sua 
formulao terica. Este pargrafo  a reformulao de uma parte de um ensaio anterior em que procurei 
elaborar mais detalhadameute esses princpios. Cf. Existential Bases of Psyehoterapy, em Extstcnftat 
Psycholonj, volume organizado por RolIo May, Random House, Nova York, 1961. 
terminados aspectos do seu meio, para que ele possa ajustar-se aos restantes. Vemos agora por que a 
definio de neurose como uma deficincia de ajustamento  inadequada. Um ajustamento  exatamente o 
que a neurose ; e este , precisamente, o seu problema.  um ajustamento necessrio pelo qual a centralidade 
pode ser preservada; um modo de aceitar o no-ser para que uma pequena parte do ser possa ser preservada. 
 neurose, ou doena de vrias espcies,  a distoro dessa necessidade de centralidade. 
Assinalemos desde j a relao desse conceito de centralidade com a fenomenologia de Husserl. Tive a sorte 
de discutir estes problemas com o meu colega, Professor Dorian Cairns, da New School for Social Research, 
que foi o tradutor das Medita es Cartesianas, de 1-lusserl, para o ingls. O Professor Cairns 
assinalou que o meu princpio de centralidade tem seu paralelo na nfase de l-Jusserl sobre integrao. 
Husserl acreditava que o impulso para a coerncia, a necessidade de aumento de experincia e do integrao 
dessa experincia eram inerentes no honem e no esprito como tal. Assim, a vida no , simplesmente, uma 
srie fortuita de eventos e observaes mas possui forma e significado potencial. A atividade mental  
protentiva. 
O SEGUNDO PROBLEMA que desejo citar e em que a Psicoterapia necessita da ajuda da fenomenologia  o 
relacionamento entre as duas pessoas, paciente e terapeuta, no consultrio. Isto refere-se ao que, na 
psicanlise clssica, tem o nome de transferncia. O conceito e descrio de transferncia foi uma das grandes 
contribuies de Freud, tanto em sua prpria opinio como entre muitos de ns. H vastas implicaes para a 
terapia no fenmeno do paciente trazer para o consultrio a sua experincia prvia ou atual com o pai, me, 
amante, filho, e passar a perceber-nos como essas criaturas, construindo o seu mundo conosco da mesma 
maneira que o faz com elas. A transferncia, como outros conceitos de Freud, amplia imenso a esfera e 
influncia da personalidade; vivemos em outros e eles em ns. Assinale-se a idia de Freud de que, para cada 
parceiro em todo e qualquer inter- curso sexual, quatro pessoas esto presentes: o nosso eu, a pessoa que 
amamos e os nossos pais. Pessoalmente, sempre adotei uma atitude ambivalente em relao a essa idia, 
porquanto acredito que o ato de amor, pelo menos, merece alguma intimidade. Mas as implicaes mais 
profundas so o decisivo entrelaamento da teia humana; os nossos ancestrais,  semelhana do pai de 
Hamlet, esto sempre arecendo em cena com alguns desafios e imprecaes espectrais. Essa nfase de Freud 
sobre quo pro 
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PSICoTERAPIA UMA ABORDAGEM FENOMENOLGICA 
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fundamente estamos vinculados uns a outros desfaz, uma vez mais, muitas iluses do homem moderno sobre o 
amor e as relaes interpessoais. 
Mas o conceito de transferncia oferece-nos interminveis dificuldades se o aceitarmos por si mesmo, isto , 
sem uma norma de relacionamento que esteja fundada na natureza do homem como tal. Em primeiro lugar, a 
transferncia pode ser uma defesa cmoda e permanentemente til para o terapeuta, como disse Thomas Szasz; 
o terapeuta pode esconder-se atrs dela para proteger-se da ansiedade do encontro direto. Em segundo lugar, 
o conceito de transferncia pode abalar toda a experincia e sentido de realidade em terapia; as duas pessoas, 
no consultrio, tornam-se sombras e o mesmo acontece a todas as outras pessoas no mundo. Pode minar o 
sentido de responsabilidade do paciente e retirar  terapia grande parte da dinmica para a mudana do 
paciente. 
O que est faltando  um conceito de encontro, dentro do qual e s dentro do qual a transferncia se reveste 
de um significado genuno. A transferncia deve ser entendida como a distoro do encontro. 
Como no existia qualquer norma de encontro humano em psicanlise nem um lugar adequado para o 
relacionamento Eu-Tu, teria fatalmente de ocorrer uma supersimplificao e diluio do relacionamento 
amoroso. Freud aprofundou imenso a nossa compreenso das muitas, poderosas e ubiquas formas em que os 
impulsos erticos se expressam. Mas Eros (em vez de retomar sua funo prpria, como Freud credulamente 
esperava) oscila agora entre ser um absurdo processo qumico que exige uma sada e um passatempo 
rlativamente secundrio para o macho e a fmea, quando se cansam de ver o programa de televiso de uma 
noite. 
Tampouco tnhamos uma norma independente de gape. O gape no pode ser entendido como um derivativo 
ou o que resta quando analisamos as nossas tendncias exploratrias e canibalsticas. O gape no  uma 
sublimao de Eros mas a sua transcendncia na ternura duradoura, na permanente preocupao pelos outros; 
 precisam ite essa transcendncia que confere a Eros o seu significado pleno e mais duradouro. 
A abordagem fenomenolgica ajuda-nos a formular as perguntas: Como  possvel que um ser se relacione 
com um outro? Qual  a natureza dos seres humanos que possibilita Mitsein, que faz com que dois homens 
possam se comunicar, que cada um deles apreenda o outro como um ser, tenha uma genuna preocupao pelo 
bem-estar e realizao do outro e sinta uma sin cer 
confiana nele? A resposta a estas perguntas nos dir de que  que a transferncia  uma distoro. 
Quando estabeleo o relacionamento com o meu paciente, 
o principio que continuo pressupondo  o seguinte: este ser, como todos os seres existentes, tem necessidade e a 
possibilidade de sair da sua centralidade para participar em outros seres. Antes deste homem dar os passos hesitantes e 
freqentemente adiados para me telefonar e marcar uma hora de consulta, ele j estava participando pela imaginao, em 
algum relacionamento comigo. Sentou-se nervosamente, fumando, na minha sala de espera; agora olha para mim com um 
misto de desconfiana e de esperana, um esforo de franqueza debatendo-se em seu ntimo contra a antiqussima tendncia 
para se retirar para trs de uma paliada e manter-me afastado. Essa luta  compreensvel, visto que pardci par envolve 
sempre um risco: se ele, ou qualquer organismo, sai longe demais, perder a sua prpria centralidade, a sua identidade. 
Mas est to receoso de perder o seu centro em conflito 
 o qual, pelo menos, possibilitou alguma integrao parcial e deu certo significado  sua experincia  que se recusa 
totalmente a sair e permanece numa postura rgida, vivendo num espao restrito e contrado do mundo em que o seu 
crescimento e desenvolvimento esto bloqueados. Este era o padro neurtico comum no tempo de Freud e  ao que Freud 
se referia quando falou de represso e inibio. A inibio  a relao com o universo do ser que tem a possibilidade de sair 
mas sente-se por demais ameaado para faz-lo; e o seu medo de que perder mais do que  suportvel pode,  claro, 
corresponder literalmente aos fatos do caso. 
Mas, em nossos tempos de conformismo e do homem alterodirigido, o padro neurtico predominante adota a forma 
oposta, isto , o indivduo sai longe demais, dispers&ndo o seu eu na participao e identificao com outros, at que o seu 
ser fica esvaziado. J no se trata aqui de uma questo de transferncia mas do fenmeno psicocultural do homem-
organizao.  tambm uma das razes, segundo me parece, pela qual a castrao deixou de ser o medo dominante dos 
homens e das mulheres dos nossos dias, substitudos pelo medo do ostracismo. Um paciente aps outro, entre os que vejo 
(especialmente os pacientes da 
3 Os pacientes diro: Se amo algum,  como se todo o meu ser fluisse de mim cmo a gua de um rio e nada 
sobrasse. Acho que isso  um enunciado de tra,isfertieia muito preciso. - Quer dizer, se o amor de uma pessoa  
algo que no lhe pertence por direito prprio, ento ser obviamente esvaziado; tudo se resume numa qicsto de 
equilbrio econmico, como disse Freud. 
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Psicon&pLA UMA ABORDAGEM FENOMENOLGICA 
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Madison Avenue), preferem ser castrados, isto , renunciar ao seu poder, para que no se vejam votados ao 
ostracismo. A ameaa real  no ser aceito, ser jogado fora do grupo, deixando sozinho, na solido e no 
abandono. Nessa superparticipao, a consistncia da pesoa converte-se em inconsistncia, porque se ajusta 
a outrem. O significado pessoal torna-se no-significativo, porque  um mero reflexo do significado de outrem. 
FALANDO AGORA mais concretamente do desprezo pelo encontro, quero com isso referir-me ao fato de que, 
na hora teraputica, se desenrola um relacionamento total entre duas pessoas que envolve um certo nmero de 
diferentes nveis. Um nvel  o das pessoas reais: estou contente por ver o meu paciente (variando em 
diferentes dias, o que depende, principalmente, de eu ter dormido bem ou mal na noite anterior). Vermo-nos um 
ao outro alivia a solido fsica a que todos os seres humanos esto sujeitos. Um outro nvel  o de amigos: 
acreditamos  pois j nos vimos um ao outro muitas vezes . que o nosso interlocutor tem uni sincero interesse 
em escutar e compreender. Um outro nvel  o do apreo ou gape, a capacidade que, creio eu,  inerente ao 
Mitwelt da preocupao da transcendncia eu em prol do bem-estar de outrem. Um outro nvel  francamente 
ertico. Quando eu estava fazendo superviso com ela, h alguns anos, Clara Thompson disse-me, certa vez, 
algo sobre que tenho freqentemente meditado: que, se uma pessoa no relacionamento teraputico sente uma 
atrao ertica ativa, a outra tambm sentir. Os seus prprios sentimentos erticos precisam ser enfrentados 
francamente pelo terapeuta; caso contrrio, ele, pelo menos em fantasia, converter as suas prprias 
necessidades em representao com o paciente. Mas, ainda mais importante, se o terapeuta no aceitar a 
forma ertica como um dos modos de comunicao, no escutar o que deve escutar do paciente e perder um 
dos recursos mais dinmicos para a mudana teraputica. 
Ora, esse encontro total, qe, como eu disse, pode ser o nosso mais til veculo de compreenso do paciente, 
assim como o nosso mais eficaz instrumento para ajud-lo a abrir-se  possibilidade de mudana, parece-me ter, 
freqentemente, o carter ressonante de dois instrumentos musicais. Se ferirmos uma corda de violino, a corda 
correspondente num outro violino, na mesma sala, ressoar com um movimento prprio e idntico. Isso  uma 
analogia, evidentemente: o que se passa nos seres humanos inclui isso, mas  muito mais complexo. 
O encontro, nos seres humanos,  sempre, em maior ou menor grau, criador de ansiedade e criador de 
alegria, Creio que esses efeitos decorrem do fato de que o encontro genuno com uma outra pessoa abala 
sempre o nosso prprio relacionamento com o mundo; a nossa confortvel segurana temporria de um 
momento antes  posta em questo, ficamos abertos e vacilantes por um instante: valer a pena arriscarmo-
nos, aceitar a possibilidade de sermos enriquecidos por esse novo relacionamento (e mesmo que se trate de um 
amigo ou de um ser amado de longa data, esse momento particular do relacionamento  ainda novo)? Ou 
deveremos fechar-nos, erguer uma paliada  nossa volta, deter a outra pessoa l fora e perder todos os 
cambiantes de suas percepes, sentimentos, intenes? O encontro  sempre uma experincia potencialmente 
criadora; normalmente, deve ter como fruto uma expanso da conscincia, o enriquecimento do Eu. (No me 
refiro aqui a quantidade  obviamente, um breve encontro poder nos afetar apenas ligeiramente; refiro-me, 
antes,  qualidade da experincia.) No encontro genuno, ambas as pessoas so mudadas, ainda que 
infimamente. C. G. Jung salientou corretamente que, na terapia eficaz, uma mudana ocorre em ambos: o 
terapeuta e o paciente; se o terapeuta no estiver aberto  mudana, o paciente tampouco estar. 
O fenmeno do encontro necessita imenso ser estudado, porquanto parece claro que muito mais est 
acontecendo do que lodos ns, ou a grande maioria, nos apercebemos. Eu proponho a hiptese de que, em 
terapia, admitindo-se que haja um esclarecimento adequado do terapeuta,  impossvel que uma pessoa senha 
um determinado sentimento sem que a outra tambm o tenha, em certo grau. Sei que os leitores vero muitas 
excees a isso, mas quero propor a tese para ponderao e para que sirva de base a novas investigaes. Um 
corolrio da minha hiptese  que, no Mitwelt, ocorre necessariamente alguma ressonncia e que a razo por 
que no a sentimos, quando no a sentimos, est em algum bloqueio de nossa parte. Frieda Fromm-Reichmann 
costumava dizer freqentemente que o seu melhor instrumento para dizer o que o paciente sente  por exemplo, 
ansiedade, ou medo, ou amor, ou clera, que ele, o paciente, no se atreve a expressar  era o que ela prpria 
sentia em seu ntimo. Este uso do prprio eu como instrumento requer,  claro, uma tremenda autodisciplina 
por parte do terapeuta. No quero dizer com isto, em absoluto, que se deve simplesmente abrir a porta e dizer 
ao paciente o que sentimos; os nossos sentimentos podem ser neurticos de mltiplas maneiras, e o paciente 
j tem suficientes problemas para que no precise de ser ainda sobrecarre 
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PsIcoTnuIA UMA ABORDAGEM Fari0MENOLGICA 
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gado com os nossos. O que quero dizer, antes,  que a autodisciplina, a autopurificao, se preferirem, o 
enquadramento das nossas prprias distores e tendncias neurticas,  medida que um terapeuta  capaz de 
faz-lo, parece-me resultar, em maior ou menor grau, numa capacidade de experimentar o encontro como um 
modo de participar nos sentimentos e no universo do paciente. Tudo isto precisa ser estudado e creio que 
pode se, de muito mais maneiras do que nos damos conta. Como j disse, estou convencido de que existe algo 
no relacionamento de um ser humano com um outro, algo inerente no Mitwelt, que  infinitamente mais 
complexo, sutil, frtil e poderoso do que geralmente nos apercebemos. 
A principal razo dessas nuanas sobre que estou falando no terem sido estudadas at hoje decorre do fato 
de que no dispnhamos de um conceito de encontro. A partir de Freud, passamos a ter um conceito claro de 
transferncia; e como uma de suas conseqncias, tivemos toda a espcie de estudos sobre a transferncia  
os quais nos dizem tudo menos o que realmente se desenrola entre dois seres humanos. Aos filsofo que 
acham que a fenomenologia pura est sendo poluida pelos psicoterapeutas, permito-me dizer que o que 
estamos tentando fazer como psicoterapeutas  obter uma compreenso do homem que nos habilite, pelo 
menos, a ver o que  que est acontecendo e, depois, estud-lo. Estamos justificados em recorrer  
fenomenologia. para que nos ajude a chegar a um tal conceito, porque ela nos habilitar a perceber o prprio 
encontro, quando at agora apenas percebemos a sua distoro: a transferncia.  especialm nte importante, 
acrescentarei, que no cedamos  tendncia, em nossas profisses, para evitar e diluir o encontro, fazendo dele 
um derivativo da transferncia ou da contratransferncia. 
O terceiro problema  o de o inconsciente. Trata-se de um problema particularmente intrincado em relao  
fenomeologia. Todos conhecemos as dificuldades inerentes  teoria do poro do inconsciente  conceito 
segundo o qual existe um nvel no subsolo onde esto armazenadas todas as espcies de entidades. E 
sabemos como esse conceito do inconsciente pode ser utilizado como um cheque em branco, no qual podem 
ser inscritos todos e quaisquer tipos de determinismo de causa-e-efeito. O uso negativo do inconsciente foi 
maravilhosamente resumido numa frase pelo meu amigo Erwin Straus: Os pensamentos inconscientes do 
pensamento so, em geral, as teorias conscientes do terapeuta. Obviamente, o conceito de poro do 
inconsciente deve ser rejeitado. 
Mas os argumentos dc Sartre e outros fenomenologistas que rejeitam o inconsciente, sob qualquer 
forma, sempre me impressionaram como legalisticos e verbalisticos, por muito lgicos que sejam. 
Um dos argumentos de Sartre  que o censor de Freud, que se supe estar plantado  porta do 
inconsciente e decidir que pensamentos podem passar para o consciente, deve saber muita coisa; 
ele deve saber o que o Id sabe, assim como o que pode ser permitido que suba  conscincia. Jsto 
aceito eu. Mas Sartre est apenas descrevendo a um outro aspecto do fato de que os processos 
mentais so deveras complexos e sutis. Concordo que qualquer experincia de que estamos 
inconscientes est, em certa medida, presente na conscincia, pelo menos, p0- tencialmente. O 
verdadeiro problema  por que a pessoa no  capaz de saber que sabe isso. No existe dvida 
alguma, em minha opinio, sobre a existncia e a importncia do fenmeno que Freud estava 
tentando descrever quando discorreu sobre o inconsciente. Se nos desembaraarmos dessa hiptese, 
ficaremos mais empobrecidos, ao perdermos grande parte da riqueza e significao da experincia 
humana. 
Assim, como devemos abordar a questo? Neste ponto, considero que dois princpios me so teis; 
um deles tem a ver coM a percepo e o outro com a conscientizao. A distino entre uma e 
outra  de uma importncia decisiva para o nosso problema. Enunciarei os dois princpios, 
comeando pela percepo (aworeness), com refrncia ao meu conceito original de centralidade, 
isto , o aspecto subjetivo da centralidade  a percepo. Aquela capacidade que compartilhamos 
com os animais e a maior parte da natureza 6 percepo. Com efeito, Whitehead e Tillich, em suas 
respectivas ontologias, sustentam que a percepo  caracterstica de todas as coisas na natureza, 
at a atrao e repulsa entre partculas moleculares. 
A percepo est freqentemente correlacionada, em nossos pacientes, com a representao e o 
comportamento paranide. Por outras palavras,  possvel ter percepo sem estar consciente. 
Todos ns conhecemos o paciente inteligente e amide compulsivo que  capaz de falar durante 
horas, com grande percepo do que est acontecendo em seus relacionamentos vitais mas sem 
experincia alguma de que ele prprio est nesses relacionamentos. Recentemente, num grupo de 
superviso, ouvi a gravao de um homem bem educado que tinha estado em anlise durante nove 
anos e que falava detalhadamente e com grande astcia sobre os mecanismos que sua esposa 
estava usando em seus relacionamentos e sobre os mecanismos entre os dois; mas o que me 
impressionou foi a sua completa falta de percepo 
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PSICOTERAPIA UMA ABORDAGEM FENOMENOT-GICA 
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de que ele era a outra metade desse relacionamento. Eu senti como se estivesse numa sala fantasmagrica, 
ouvindo urna voz mas sem pessoa alguma ali. A percepo sem conscientizao  sumamente 
despersonalizante. 
Assim sendo, um outro principio  no s importante mas necessrio. Eu enuncio-o da seguinte maneira: A 
conscientizao  a forma nitidamente humana da percepo  aquela capacidade particularmente humana no 
s de saber algo mas de saber que a sei, isto , experimentar-me como sujeito em relao a um objeto ou como 
Eu em relao ao Tu. Considero o trabalho de Erwin Straus  como em seu imperecvel ensaio The Upright 
Posture  pertinente e bsico para a distino entre percepo (awareness) e conscientizao (consciousness). 
O animal que caminha de quatro, como o cachorro chon de nossa famlia, possui, em muitos aspectos, uma 
capacidade de percepo incomensuravelmente maior do que a nossa. A perspiccia do nosso co a uma 
grande distncia, atravs dos seus sentidos alertados do olfato e ouvido,  uma interminvel fonte de espanto 
e faz-me sentir que ns, seres humanos, somos espcimes deveras medocres, de fato, sob um ponto de vista 
evolucionrio. Em nossa fazenda, esse co  capaz de detectar outros animais ou pessoas que, a uma grande 
distncia, cruzam o porto da estrada; e, sendo um chow, ele parte do princpio de que aqueles que no so 
da nossa famlia devem,  claro, ser mordidos sem mais delongas. 
Mas quando o homem se ergue em duas pernas, adota a postura ereta e v, ele no s percebe a uma dada 
distncia mas tem a percepo de uma distncia entre ele prprio e o mundo. Em minha opinio, essa distncia 
est correlacionada com a conscientizao. O estudo do Dr. Plessner, On Human Expression, tem muita coisa 
significativa a dizer sobre esse ponto. O mesmo fenmeno  o que faz do homeffi o ser interrogativo (cf. Man, 
the Questioning Being). No poderamos indagar se no tivssemos a percepo da distncia entre ns e o 
mundo. Interrogar, indagar, implica que eu me encontro num relacionamento significativc com o mundo e isso  
uma expresso distintiva da conscientizao. 
Voltemos agora ao problema do inconsciente. Como interpretaremos os fenmenos inconscientes, que so to 
rieamente 
4 Ilelmuth Pleasncr, On Hunian Expression, em Erwin Straus (org.), Pketwinenologij: Pure and Appiied, 
Duquesne University Preas, Pittsburgh, 1964 
b Erwin Straus, Pketwmenologieal Psijchologu, Basie Books, Nova York, 1966. 
evidentes nos sonhos, que esto presentes, to significativaniente, em toda a gama de sentimentos e aes 
dos nossos pacientes e de ns prprios? Devemos, desde j, redefinir o conceito. No podemos dizer o 
inconsciente, visto que nunca  um lugar. Tampouco so coisas, no sentido de entidades inconscientes; as 
coisas no so reprimidas; mas os processos e potencialidades mentais so. Proponho a seguinte definio: 
Experincia inconsciente so as potencialidades de ao e percepo que a pessoa no pode ou no quer 
tornar concretas. No obstante, essas potencialidades podem ser fisicamente concretizadas no corpo; a 
negao de desejos e potencialidades sexuais pode ser expressa em sintomas somticos, como Freud sabia 
muito bem. Mas o ponto importante  que o indivduo no quer ou no pode estar consciente do desejo. 
Como j indiquei,  decisivamente importante manter a distino entre percepo e conscientizao. O paciente 
pode muito bem ter percebido, em algum nvel, a experincia que  negada e da qual, por fora dessa 
negao, ele est inconsciente. Assim, quando ele afirma: Eu sabia isso o tempo todo, a sua afirmao  
correta, Mas os termos em que se expressou esto errados: ele podia muito bem ter percebido a experincia 
reprimida mas impedira-se de saber que o sabia, por outras palavras, estava cnscio da existncia de algo 
cujo ingresso na conscieneia no permitira. O paciente sabia mas no podia saber que sabia. 
Quando Sartre argumenta que o censor sabia o tempo todo, creio que ele est se referindo  percepo e no  
conscientizao. O conceito de inconsciente deve ser entendido na base (e derivado) de consciente e no 
o inverso, como os pensa- dores evolucionrios so propensos a fazer. Se desejarmos falar em termos 
evolucionrios, deveremos dizer que a conseientizao e a capacidade de neg-la, a saber, o inconsciente, 
surgem de uma percepo indiferenciada. A inconscincia  uma descrio das formas infinitas e versteis da 
conscientizao. 
Ora, 6 freqentemente argumentado que a fenomenologia, particularmente em sua forma husserliana, relaciona-
se to-s com a conscientizao. Isso no  inteiramente verdade. O Professor Cairns, em sua discusso 
comigo, formulou a opinio de que  como se Husserl deixasse um lugar para a inconscincia, ao limitar-se 
apenas  descrio da conscientizao. Tambm era opinio do Professor Cairns de que as minhas redefinies 
de inconscincia so, pelo menos em certa medida, compatveis com a fenomenologia de Husserl, tal como ele 
a entende. 
As implicaes dessa anlise para a terapia da experincia inconsciente so significativas. Foi dito por Freud 
que a tarefa do analista consiste em tornar o inconsciente consciente. Eu diria, antes, que a tarefa do tesapeuta 
 ajudar o paciente a converter a percepo em conscientizao. Este processo envolve todas as 
potencialidades que descrevi como inconscientes mas que, em certa medida, esto presentes em nossa 
percepo da experincia ou, pelo menos, esto-no potencialmente. A conscientizao consiste na experincia 
Eu sou aquele que tem este mundo e estou fazendo algo nele, o que implica responsabilidade, pagar ao 
mundo 
Assim, ao converter a percepo em conscientizao, temos uma dinmica para a mudana, isto , aumentando 
a esfera de conscientizao e experincia do paciente, a qual  diretamente inerente ao prprio ser do paciente. 
O impulso e o movimento para mudana e realizao plena no tm de ser trazidos de fora, por voluntarismo 
vitoriano, ou por condicionamento ou pela moderna moralizao conformista. Promanam diretamente do 
prprio ser do paciente e da sua necessidade de realizar esse ser 
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PszconnpIA 
